sexta-feira, 7 de junho de 2013

A quem nos lê

Se o lyrismo, como diz Laprade, é a “essencia intima” da poesia, certo elle se diffundirá com maior influxo nas trovas populares, que são a expressão puramente sentimental do genio poetico das nações.

Theophilo Braga diz com irrefutavel discernimento scientifico: “As formas da poesia popular, que revestem os sentimentos das raças que entraram no periodo actual da historia constituindo-se nacionalidades, têm impresso em si o cunho das civilisações que se encontraram.”

De facto, a musa das multidões é, na sua caracteristica simplicidade, a eloquente demonstração do valimento ethenico de um paiz, e seos subsidios devem ser apurados para que se possa levantar o monumento do tradicionalismo patrio.

Nada é mais bello do que um povo poder apresentar ao consenso da historia as manifestações poéticas de sua sentimentalidade.

Foi levado por esta indiscutivel verdade que Lemke firmou o seguinte substancioso principio: “Assim como toda a combinação chimica é seguida de um desenvolvimento de calor, toda a combinação de nacionalidade é seguida de um desenvolvimento de poesia.”

Entre nós, cá neste recesso do territorio brazileiro, parece que a linha heraldica do nosso antigo cancioneiro vae sendo absorvida pelas invasões dos costumes estrangeiros. Rocha Pombo, em seo Paraná no Centenario, prevê esta transformação.

Diz elle: “Hoje, não mais se canta como se cantava nos bairros e sitios, tanto da marinha como do interior. A vida dos centros, o bulicio das cidades foi contrafasendo a primitiva simplicidade dos usos e costumes populares.”

Dest’arte, para que não fiquem perdidos os bellos cabedaes do cancioneiro paranaense, torna-se preciso que os contemporaneos incumbam-se de leval-os á luz de publicidade, no intuito de prestar homenagem ao talento dos nossos rusticos trovadores e um grande serviço ao levantamento das nossas tradições.

Nós, sem pretenções a glorias litterarias, apenas traçamos esta monographia com a intenção de render um preito de admiração sincera áquelle singular cantor que em vida foi conhecido por Bento Cego, e que correo mundo atravessando todos os perihelios do infortunio, mas dignificando sempre o nome de sua terra natal.

Nascido nas mesmas plagas onde Bento tantas e tão amarguradas vezes dedilhára a sua planturosa viola, tinhamos a obrigação de ser quem primeiro devia traçar estas linhas de amor, feitas ao impulso de saudosas recordações infantis.

E assim procedendo, procuramos tão sómente pôr em evidencia aquella lei de selecção historica, vulgarisada sob a denominação de patriotismo.

É devido á força propulsora dessa soberana lei de progresso, que os povos costumam prestar ruidoso culto de veneração aos seos coevos, destacando em pomposas homenagens triumphaes aquelles que se tornam sobrehumanos como Buoronetti ou estupendos como Wagner.

Bento Cego, genial na trova e na execução da viola, mereceo tambem uma apotheose.

Não seremos nós quem a fará, porque nos são falhos os indispensaveis recursos materiaes para a realisação de semelhante tarefa. Queremos ao menos accender as gambiarras do affecto publico em torno de quem, como o Cego, tanto se engrandeceo engrandecendo as tradições do Paraná.

Nomade, talvez por impulsão da trevosa noite dos olhos, Bento atravessou muitas vezes as nossas linhas fronteiriças e foi cantar nas campanhas do Rio Grande, nos sitios catharinenses e em cidades de S. Paulo e Minas Geraes, deixando por onde andou nitidos fulgores de espirito—cheios dessas miraculosas divinisações de intelligencia d’onde irrompem as suas caprichosas creações geniaes.

Que seja elle o Homero destas regiões do sul, já que entre ambos tanto se affinisam os elances da sorte e o condão da imaginação poetica.


A nossa obra é, pois, simplesmente uma lagrima vertida sobre a cova rasa do nosso Homero, desses que, se vivesse nos faustosos tempos byzantinos, com certeza teria seo nome inscripto em brazões de ouro ao lado dos semi-deuses da poesia hellenica.

Nenhum comentário:

Postar um comentário